Mar
#06 Passado e presente andam de mãos dadas, com a água a bater nas canelas.
Jogo os chinelos na areia e entro sem hesitar. Não me importo se a água está gelada, se tem bandeira vermelha, se estou sozinha. Já nos conhecemos o suficiente para saber onde não posso cruzar.
Atravesso uma onda prendendo o nariz com a mão direita. Nunca aprendi a segurar a respiração embaixo d’água. Elas vêm aos montes, eu recuo até a água bater na cintura. Melhor não arriscar.
A potência das ondas me derrubava quando menina e ainda me sinto assim ao entrar nesse mar. Uma menina no meio dessa infinita imensidão feita de água – ora transparente, ora cor de areia.
Os peixinhos cruzam minhas pernas. Mariscos se enterram rapidamente na areia. Tatuíras passeiam na planta dos pés, parecendo pedrinhas que não doem, mas fazem cócegas. Ou outra sensação que, depois de anos, ainda não sei nomear.
Carrego na pele as lembranças desse mar. Uma queimadura de água-viva na coxa esquerda, ainda criança. Os joelhos que se esfolavam na areia ao pegar jacaré. A tinta rosa do cabelo que pingava pelo corpo ao sair d’água.
Sinto a areia molhada nos pés. A mesma que, quando pequena,
fazia castelos
enterrava o corpo
ralava o joelho
jogava bola
cavava buracos
catava mariscos – os quais ela nota,
“um deserto de borboletas”.
Parecem mesmo, abertos e secos na beirada do mar. Sem vida, mas ainda assim cheios de cores cintilantes.
Caminhamos juntas pela areia úmida, que muda de cor conforme nos movimentamos. Nossas solas se apagando a cada novo passo. O presente tão logo se torna passado.
Mas aqui, agora, passado e presente andam de mãos dadas, com a água a bater nas canelas.
Encontramos uma estrela bolacha-do-mar. Com seus milhares de pés que parecem cílios mexendo para cima e para baixo, ela prova que ainda está viva. A devolvemos às ondas.
Os siris não tiveram a mesma sorte – nem o que vimos morto na areia, nem o que foi capturado pela rede de pesca. O mesmo aconteceu com os peixes. E com a água-viva, de tentáculos cor-de-rosa.
“Nesse caso, é água…
morta?”
Ao passo que nos afastamos, a areia é gelada e firme, para então ficar farelenta e escaldante. Ela arranha as canelas quando o vento sopra.
Parece um pouco como a neve. As diferentes texturas, efeitos, temperaturas. A gente tem nome pra isso? Pra todo esse tipo de areia?
Nós a carregamos nos pés e, por isso, ao chegar em casa, instruo a pequena a usar a porta lateral que dá direto para o chuveiro. Deuzolivre entrar com areia pela casa. Já ouço a voz da minha avó vindo até a porta garantir que nenhum grão encoste no chão da cozinha, apontando a direção do banheiro mais próximo.
Ela ficava atenta ao movimento de quem aparecia molhado, salgado e empanado, ao mesmo tempo em que cozinhava o almoço para seus filhos e netos e genros e noras e marido e irmãs. Às vezes a sogra, minha bisavó.
Almoço de praia não tinha horário. Ficava pronto à uma, às duas da tarde. Dava tempo de comer picolé sentado na escadinha de pedras e, também, de tirar a água salgada dos cabelos. Mas nem sempre o fazíamos.
“Mais tarde a gente volta”, eu disse pra ela.
E a gente voltava. Guarda-sol, baldinhos, pá, protetor solar, prancha de isopor, bola de futebol, chinelos para não queimar a sola do pé e, também, para servirem de travinhas pro futebol de areia. Corríamos pro mar para tirar o suor do corpo. As ondas quebravam na barriga. Chutávamos a água com os pés, um contra o outro, e gargalhávamos, imersos em nossa doce inocência infantil.
O mundo parecia imenso.
Imenso como esse mar,
onde agora é ela quem corre ao encontro das águas, para então
recuar
com medo de ser derrubada pela potência das ondas. Elas vêm aos montes.
Ainda está aprendendo a andar de chinelos. A catar mariscos. A pegar jacaré. A mergulhar sem prender o nariz com as mãos.
A deixar a areia molhada soterrar seus pés quando o mar inspira. Ela vê uma parte de si desaparecer com o movimento das águas. Uma parte de mim ressurgir dessa areia molhada.
Entrelaçamos os dedos e
pulamos a próxima onda.
Castelos de areia - Márcia Leite, ilustrado por Odilon Moraes
Indicado a partir de 5 anos.
Se pudesse escolher um só livro da vasta biblioteca da minha filha, seria este. Castelos de areia traz uma narrativa poética e fluida sobre as férias à beira-mar, na casa dividida com os tios, no tempo ocioso de uma infância sem internet. As ilustrações em aquarela dão ainda mais beleza à história, por vezes ocupando as páginas duplas e criando um respiro visual para a leitura.
Toda vez que leio esse livro com a minha filha, lembro do meu irmão. Da minha avó. Das minhas tias-avós. Do sol. Do mar. Já ela, volta às suas próprias memórias das férias de verão ao lado das primas. Dos avós. Do calor. Da areia. Dos castelinhos feitos com baldinho, que nunca duram para sempre, mas seguem sendo boas lembranças da passagem do tempo e da efemeridade da vida.





Que lindas! Adorei "ver" esse passado e presente juntos na praia (e que amor a imagem de aprender a usar os chinelos)
Me trouxe de volta aos verões da minha infância. Obrigado.