Ginga
#09 Bilinguismo e identidade
— Você fala português de Portugal? — minha filha pergunta ao atendente do balcão.
— Sim, isso mesmo. E você, fala que português?
— Português da Suécia.
O português da Suécia, de sueco tem pouca coisa. Às vezes uma palavra intrometida numa frase – “tô fazendo geggamoja” – ou a estrutura gramatical um pouco bagunçada – “olha que alto prédio, mãe!”
Mas que imigrante não mistura línguas? Que poeta não coloca o adjetivo antes do substantivo?
“As fronteiras entre línguas raramente ou nunca coincidem com as fronteiras entre países. Se considerarmos que existem cerca de 150 países no mundo, mas até 5.000 línguas diferentes, podemos perceber que isso não é tão estranho assim.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p.161
Na última ida ao Brasil, Valentina fez novas amizades, especialmente com um menino de onze anos. Eles brincaram o dia todo e, num determinado momento, ele perguntou em que colégio ela estudava.
— Na minha escolinha na Suécia.
— Hahaha, Suécia. Tô falando sério.
— Ué, eu também tô falando a verdade.
— Mas, mas… tu… tu não mora aqui?
— Não. Eu moro na Suécia.
— Então tu fala… sueco?!
— Sim, eu também falo sueco.
— Mas nossa! Tu fala português igual a gente!
E o dia seguiu com o garoto perplexo pela descoberta de que a nova amiguinha tinha uma identidade secreta que ele nunca imaginou existir.
“Para as crianças, uma língua torna-se importante principalmente através de pessoas queridas. O sentimento por uma pessoa é transferido para a sua língua. Pode ser uma avó, primos, amigos... Se os amamos, aprendemos a sua língua com mais facilidade. Em sociedades multilingues, as crianças muitas vezes aprendem línguas através dos seus amigos. A brincadeira e a alegria de socializar com outras crianças criam um terreno fértil para a aprendizagem de línguas. Mesmo nos adultos, o amor pode ser a força motriz mais importante para a aprendizagem de uma língua.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p. 58
Morando há dez anos fora do Brasil, sinto que minha língua parou no tempo.
Percebo ao ver minha filha falando. Seu português é do sul – uma mescla de criciumense com gauchês – com gírias dos anos 90, que minha geração carregou da infância e ela herdou sem saber a origem.
“Massa!” para o que é bom. “Viajou na maionese!” para o que não faz sentido. “Mãe, fiz cagada!” quando algo deu errado. “Bah, rateou hein, pai!” para o erro alheio que ela fez questão de registrar.
Um português que faz até minhas amigas de escola rirem, de tão datado. Mas ainda é meu jeito de existir. De resistir.
“Não é apenas a língua de uma pessoa que muda. A língua de um país também muda. Novas palavras e expressões surgem e antigas gírias desaparecem. Há mudanças no que é considerado educado, no que é pessoal, etc. Portanto, o emigrante que retorna à sua terra natal pode se sentir linguisticamente estrangeiro, mesmo que tenha usado sua língua nativa o tempo todo.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p.78
— Akta rampen! (Cuidado com a rampa!) — exclamou Valentina para a coleguinha.
— Acho que nunca conheci uma criança de quatro anos que sabia como isso se chamava — respondeu a mãe da criança, perplexa.
Eu, por outro lado, entendi na hora. Ela usou uma palavra em português na conversa pra ver se funcionava. Funcionou. Essa é a vantagem do bilíngue: poder flexionar palavras de uma língua na outra. Às vezes dá certo.
“Quem não conhece uma palavra em um idioma pode usar outra. Talvez o exemplo mais comum seja o de uma palavra de um idioma ser inserida em outro porque a pessoa não aprendeu a palavra correspondente naquela língua.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p.27
Foi com essa mesma amiga, aliás, que vi minha filha ler um livro em português. A menina acompanhava as imagens, mesmo sem entender as palavras.
Depois, fez questão de traduzir a história toda em sueco para a amiga entender. A amiga gostou da brincadeira e assim passaram o restante da tarde. Entre livros e línguas.
“As crianças não aprendem melhor uma nova língua porque começam a deixar de lado o seu próprio idioma — muito pelo contrário. Aquelas que começam a sentir vergonha do seu idioma e da sua identidade tornam-se inseguras. Elas levam essa insegurança para a nova língua. Aquelas que começam a perceber que não são boas o suficiente também se tornam inseguras no novo idioma.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p.105
É por conta dos livros, aliás, que tenho que lidar com esse tipo de pergunta:
“O que significa cantando a resfolegar?”
“O que é véspera?”
“Perambular?”
“Almanaque?”
“Candial?”
“O que é uma célula?”
“Porque se fala lobu mas se escreve lobo?”
Todo dia uma palavra nova para dissecar.
(Mãe, o que significa dissecar?)
“Expandir o vocabulário é um processo que pode durar a vida toda. O aprendizado de palavras nunca termina; sempre há novas palavras para aprender. Nesse sentido, é completamente diferente do aprendizado de pronúncia, gramática e linguagem automática, que em algum momento podem ser considerados concluídos.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p. 38
“É fantástico, não é? Ela fala fluentemente em sueco. Não hesita nem mistura a língua quando está entre nós”, me disse a professora da escolinha.
Valentina é a única criança que fala mais de uma língua na sua turma, o que causa curiosidade. É comum seus colegas perguntarem que língua falamos e o que estamos conversando. Às vezes eles inventam que também falam outra língua, como inglês ou japonês, indicando que ser bilíngue é algo legal.
Minha filha faz questão de falar comigo em português. Depois traduz com naturalidade pros amigos curiosos. O que pra gente é algo fantástico, é apenas seu jeito de navegar no mundo.
“Muitas pessoas se surpreendem com crianças pequenas que aprendem rapidamente a pronúncia e a gramática corretas e falam sem hesitar. Crianças multilíngues também alternam entre idiomas automaticamente — é uma parte natural da competência multilíngue.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p.80
“De que lugar do Brasil você vem?”, é a pergunta que minha filha ouve toda vez que encontra brasileiros.
Ela responde que nasceu na Itália, cresce na Suécia, “mas meu coração também é brasileiro, pois sei o que é sentir saudades.”
“Talves a emoção nos proporciona a força motriz mais importante para a aquisição de um idioma. O idioma precisa se tornar emocionalmente significativo para que a aprendizagem seja eficaz. Não basta que o idioma esteja presente no ambiente; ele precisa parecer importante.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p. 48
Certa vez, a escolinha da minha filha levou as crianças para uma atividade musical. Quando chegou em casa, ela contou tudo com a velocidade de quem mal conseguia segurar a história dentro do corpo.
— Daí, mãe, a atriz disse: “Será que vocês conseguem falar em português? Repitam comigo: Boa viagem! Adeus!” Aí eu fui traduzindo pros meus amigos o que significava, né, tipo trevligt resa! e hej då!
— E também teve capoeira, mãe! Eles ensinaram os movimentos e os nomes. Tipo isso aqui — ela explica mexendo os braços — é ginga! Igual tem naquele livro da bola!
Mais tarde, a professora me contou o que aconteceu no momento em que a atriz fez a pergunta. Os colegas fizeram a maior festa, apontando para Valentina, dizendo que ela sabia falar português. Orgulhosos da colega, que fala como eles, mas também carrega outra nação dentro de si.
“Ela sorriu de orelha a orelha. O rosto se iluminou como o sol. Acho que nunca a vi tão feliz.”
“A força motriz mais profunda ligada à identidade é, provavelmente, a necessidade humana de ser visto — e visto por quem realmente se é.”
Gunilla Ladberg, Barn med flera språk, p. 107
A bola do mundo é nossa - Fabiano Moraes, ilustrado por Thiago Amormino
Indicado a partir de 6 anos.
No Brasil, futebol não é esporte. É cultura, é ritual, é linguagem. Mas e a bola? Essa coisa redonda que quica e rola e sem a qual não há drible, não há Copa, não há jogo...alguém já parou para contar a história dela?
“A bola do mundo é nossa” faz exatamente isso. Numa viagem no tempo, o livro revela que a bola de futebol é muito mais brasileira do que parece. A bola de couro chinesa, recheada de ar pelos ingleses, recebeu a borracha dos índios e, quicando e rolando pra valer, curvou-se diante de uma arte africana que veio para o Brasil: a ginga. (Sim! É desse livro que minha filha estava falando quando ouviu a palavra nas bandas de cá).
Nesse clima de copa, o livro nos ensina sobre uma das maiores heranças culturais que carregamos: não só o futebol, mas o orgulho de um país que transformou uma simples bola em arte.
Te vejo na semana que vem, com mais uma ótima conversa, dessa vez com um filho de mãe brasileira com pai norte americano. Até lá! :)
Na tradução do sueco, “Crianças com múltiplas línguas”. Livro de Gunilla Ladberg publicado em 2003, pela editora Liber. Todas as citações foram traduzidas por mim do original.





Que texto lindo e emocionante. Eu amo ler esses relatos! A Valentina dizer que também sabe o que é sentir saudades derreteu meu coração.
Sim, a língua é ligada às emoções. Foi um prazer ler o seu artigo ❤️😀. Eu não sou falante nativa de português, mesmo assim o prático com muita alegria.